Da política à politicagem


O escândalo da Lava Jato tem feito a população mais uma vez ficar estupefata e surpreendida com a classe política. O Brasil está diante de um dos mais rumorosos casos de corrupção do mundo. Na história do país jamais ocorreu um caso transnacional, que exija investigações por parte do sistema jurídico até mesmo de outros países.

O espetáculo que degrada a imagem do Brasil é a síntese de um dualismo da vida pública que perpassa a história: a estreita relação entre a política e a politicagem.  Seu desconhecimento leva o brasileiro a achar que política seja algo sujo e imoral, fazendo, assim, que pessoas honestas se afastem do meio político – necessário para gerir os interesses da comunidade.

Se o leitor pegar qualquer político brasileiro saberá que praticamente todos têm comportamentos das duas formas de interação com a vida pública.  A política (do grego puraπολιτικός – politikos) é a mais rara, praticamente impossível de se encontrar nos dias atuais.  Pelo princípio que original o termo, ‘política’ não pode ser prática de enriquecimento.

Em Goiás, por exemplo, não existe um único exemplo contrário: alguém que tenha entrado rico na política e ficado pobre. É o inverso: não existe um governador vivo, por exemplo, que não tenha se enriquecido.  Mas não pense que é só em Goiás: todos os presidentes se enriqueceram. Para constatar, basta observar as declarações de bens que realizam na Justiça Eleitoral a cada pleito que disputam.

A politicagem, ao contrário da política, é farta e revela a ação no espaço público tomada por interesses, esquemas, criminalidades e dissimulações. Se você pensou apenas em José Sarney,  Lula,  João Alves (anão do orçamento), Rubens Ricupero, Fernando Henrique Cardoso, Fernando Collor de Melo, saiba que está cometendo um equívoco: existem milhares por aí que representam gestões que foram condenadas e criticadas por esquecer os ideais da política.

Enriquecer é o mínimo que o politiqueiro faz. Ele prejudica a sociedade com suas decisões. Um exemplo: uma obra inacabada ou paralisada por interesses alheios à comunidade pode tornar-se motivo morte.  Na última semana, em Goiás, um homem morreu arrastado por uma enxurrada para dentro de uma obra inacabada. A morte do cidadão, assim, tem motivação na prática política.

Quando não existia política, o mundo era regido apenas pela força e poder. Era pior do que viver em plena politicagem. Sem a política, a conquista dos instrumentos que subjulgam os povos era mediada pelas armas. Os homens com exércitos mais fortes conquistavam o poder e com ele faziam o que bem entendesse.  Não era um período intercedido pelo direito moderno, por exemplo, mas por rituais, guerras, ordálias e violências de toda sorte.

Em uma época em que imperava a barbárie, portanto, antes mesmo da atualização de comportamentos na Grécia, os poderosos empunham seus desejos por meio dos ataques, estupros e destruições.  Períodos como estes podem ser representados pelas gestões do Rei Dario (550 a.C- 486 a.C) ou Xerxes (518 a.C- 465 a.C), quando não existia ainda a noção que temos de estado e de ações públicas.  Os impérios se moviam pelos territórios, impondo os desejos dos soberanos.

GRÉCIA

O tempo amadureceu os homens por meio de um espírito civilizador e a política de repente surgiu. Na antiguidade, entre os gregos, através do desenvolvimento da racionalidade, passou-se a realizar em praça pública uma ação movida pelo discurso. Em vez das armas, os homens se muniram de discursos e retóricas. Por curto período, a política foi o que realmente significava: ação na polis (cidade).  E ação para o bem.

A ação na polis foi tão eficaz que rapidamente as criações dos gregos  para atrair a participação de todos se tornou uma ameaça para outras nações fundadas na arbitrariedade. A democracia (deliberativa e também representativa) e os primeiros formatos de eleição foram expostos com clareza a ponto de se tornar uma atividade  considerada acessível a todo cidadão. Dela surgiu a ideia de divisões de poderes e organização do Estado.  É o pensamento político que cria e ordena o Estado, com suas garantias e respeito aos direitos fundamentais.

Na Grécia, portanto, os mecanismos de participação popular eram tão importantes quanto as decisões do Senado, por exemplo.   É claro que as classes que dominam a sociedade por meio da força e dos recursos que acumularam ao longo do tempo não permitiram que este sistema se perpetuasse.

Sem capacidade de negar a lógica e a praticidade dos sistemas democráticos, em um sistema  judaico-cristã,  as elites (geralmente formadas pelos empreendedores, fazendeiros e apenas subsidiariamente os políticos) criaram a politicagem.

Ela vem surpreendendo a opinião pública desde a antiguidade, com práticas como o fisiologismo, a corrupção, as alianças de conveniências e as estratégias para a simples tomada do poder.

Não raro um político pode ter em seu currículo práticas de política e também politicagem.  No Brasil, não faltam exemplos: no espaço público, os políticos assumem a ‘política’, como quando ofertam ‘bolsas’, ‘passes livres’, melhores índices de combate à criminalidade, um maior aporte de recursos e as ações que melhoram a vida em comunidade. Nos bastidores, todavia, os mesmos que sorriem com bondade e fazem fotos com os mais pobres se encontram com empreiteiros, pedem a subalternos que eliminem adversários ou que procurem cooptar ‘inimigos’ que dão trabalho nos períodos eleitorais.

 

Práticas se espalham pela sociedade

 

Os casos mais proeminentes de corrupção do Brasil são os mais recentes: Mensalão (governo Lula) e Petrolão (Dilma Rousseff) caminham para ser históricos, na medida e que reúnem os principais elementos da politicagem, caso do fisiologismo, do envolvimento político do setor empresarial e do comportamento desviante através da corrupção de agentes menores.

Em Goiás, o evento de politicagem mais rumoroso da história é o Caso Cachoeira, que pegou de surpresa o governador Marconi Perillo, ex-senador Demóstenes Torres, um grupo de secretários e o principal citado – o empresário Carlinhos Cachoeira.

O evento, infelizmente, deixou vítimas, como o ex-senador, considerado promissor nome da política brasileira e que passou a ser visto como exemplo de politicagem.

Corrupção é – invariavelmente – o combustível dos episódios.

Mas existe  o elemento central da politicagem: o corrompimento do homem comum. Esse manto negro, infelizmente, cobre a todos: do jornalista de política ao comandante de polícia, que atende pedidos de amigos e conhecidos do gestor público.  Do motorista ao líder sindical.  O exemplo de cima desce ao chão e dispara uma prática mundana que adultera toda a boa intenção da expressão ‘política’.

A primeira diferença percebível entre política e politicagem é, portanto, a falta de transparência das ações. O mesmo político que reúne estrategicamente os beneficiários de uma ação de interesse social em um ginásio, por exemplo, se encontra às portas fechadas com pequenos grupos interessados na defesa de seus interesses privados – cujo melhor exemplo teria ocorrido no Caso Cachoeira e agora é denunciado pelo ex-ministro Joaquim Barbosa, quando o ministro da Justiça do país, José Eduardo Cardozo, se encontra com investigados pela Polícia Federal na operação  Lava-Jato – fato que quebra hierarquias e deixa claro que aos poderosos o político dispensa mais tempo e se necessário até mais oportunidades.

Cientificamente para comprovar como os políticos estão comprometidos com as elites e grupos que sustentam sua vida pública basta uma análise de conteúdo da agenda de um gestor público durante um mês. É possível perceber a quem ele atende publicamente – sem contar os encontros às escondidas.

 

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Políticos de verdade

 

Homens públicos que optaram em fazer política em vez de politicagem. São raros, mas existem inúmeros que protagonizaram cenas de boa prática e defesa do social

 

Um brasileiro

– Eduardo Suplicy  (PT-SP)- Está no limite da politicagem, pois endossa ações internas do PT para acobertar suspeitos de práticas de crime. Defendeu doações para criminosos. Mas é um homem de ideias. Não existem denúncias contra ele. Foi um senador sem voz e força, mas por causa do meio.  Apresenta altruísmo e comportamento democrático. Jamais entrou em debates e na agenda das politicagens.

 

 Um goiano

– Alfredo Nasser (UDN) – Foi um dos políticos goianos mais representativos do conservadorismo, mas sempre com comportamento irretocável. Intelectual, e jornalista, ele escreveu para  a Folha de S. Paulo artigos e reportagens. Foi um dos mais brilhantes oradores do Senado. Não se enriqueceu com a política. Chegou a ser ministro da Justiça no governo João Goulart, de 13 de outubro de 1961 a 12 de julho de 1962.

 

Uma representante de Goiânia

Cidinha Siqueira – a ex-vereadora do PT  é exemplo para os políticos que jogam milhares de reais nas campanhas. Ela começou entregando seus ‘santinhos’ com uma mão mecânica nos sinaleiros da Capital. Foi vitoriosa em dois pleitos e hoje ocupa uma das secretarias, em Goiânia.  Sempre procurou realizarpolítica.

 

 

Politéia é apenas teoria na modernidade

Na Grécia antiga, a expressão πολιτεία (politéia) é que deu origem à política. Antes dela surgir, portanto, os homens já realizavam ações comuns  mas praças, como a limpeza e a construção de diques. Não existia regras: o cidadão poderia realizar alguma ação pública sozinho ou convocar na praça (Ágora) uma eleição. Os procedimentos da polis, assim, incluía pequenos atos ou mesmo grandes, desde julgamentos a decisões referentes aos tributos.

A política, portanto, tinha a ver com a cidade. Era uma ação voltada para o desenho da vida urbana.  Assim as polis se dividiam em acrópole, ágoras e khoras ( e a zona rural) e ástey (o centro).  Enquanto na acrópole erra constituída a administração e o templo, nas ágoras os homens se reuniam para debater os grandes temas e gerar o que hoje chamamos de opinião pública – que, na modernidade, se tornam os votos que garantem as carreiras políticas.

Hoje, a politéia é teoria. A prática das cidades é outra: vende-se o espaço público, utiliza-se a política para valorizar determinadas áreas, compromete-se o meio ambiente tendo em vista interesses comerciais de shopping centers, vendem-se ruas e procura-se explorar a vida das pessoas, através de ações voltadas para atender grupos e organizações.

A politicagem está, assim, na raiz das instituições. Nem as que servem para proteger a sociedade escapam, caso da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), imprensa e Ministério Público.

Por isso de tempos em tempos a população, que tem o verdadeiro poder (todo poder emana do povo que o exerce por meios de seus representantes, diz a Constituição Federal), se subleva e faz o limpa nos mandatos. É o mal menor: se não encontra bons políticos ao menos impõe a alternância de poder entre os vários integrantes das elites e dos comandos das corporações.

 

 

 

Para entender a política e a politicagem

 

Política: a arte, o comportamento ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados e também a atividade dos cidadãos que se ocupam dos assuntos públicos. O voto é o instrumento principal do cidadão, que possibilita sua entrada no jogo político.

 

Politicagem: depois das ideias dos gregos de que política seria “ação comum” na cidade, surgiu outra concepção, bastante resumida nas ideias do filósofo de direito público Nicolau Maquiavel: a política é uma arte estratégica, que depende de astúcia e combinação de várias técnicas. Maquiavel inaugura a ideia de que a política é poder, e este precisa ser conquistado e mantido.  Ele escreve um livro, “O Princípe”, em que tenta sistematizar as práticas medievais e orghanizá-las como um Manual de auto-ajuda para os poderosos da época.  Por ironia do destino, a sociedade, ao ler seu livro, começa a ter ciência do que ocorre nos bastidores da política.

 

Características da política

Altruísmo: as ações de um indivíduo beneficiam outros. Bastante comum no relato da vida de santos, de pessoas voltadas para a comunidade, como Madre Teresa de Calcutá ou Betinho.

 

Democracia – É a forma de relação política em que se aceita perder. No embate de discursos, votações e atos políticos, vence o melhor argumento. No Brasil, a democracia é corrompida. A prova é o Congresso Nacional, com 48% de eleitos milionários (existem 248 apenas na Câmara dos Deputados) . Existe na ciência política uma hipótese comprovada por estudos acadêmicos: a politicagem é uma arte ideal para milionários. Eles encontram medidas eficazes para corromper os votos.

 

Transparência – O verdadeiro político é transparente. Ele não distribui seus bens para nomes de ‘laranjas’ ou pessoas da família, ampliando, assim, a  rede de corrupção. Ele é transparente por uma necessidade: não tem como ocorrer enriquecimento ilícito apenas com a carreira de político. Políticos geralmente são transparentes pois não ganham vultosas somas de dinheiro na vida pública. E exigem que os demais integrantes de seu grupo façam o mesmo.

 

 

Características da politicagem

 

Egoísmo – o politiqueiro pensa em seu grupo.  Enriquece amigos, parentes e mantém seus esquemas. Por isso é comum que os políticos andem sempre em grupo, com os mesmos secretários e ministros. O leitor pode escolher qualquer um e ver que ele sempre tem em pontos estratégicos  homens-funções. Como se envolve em demasia com grupos, os politiqueiros esquecem a sociedade.

 

Autoritário – o politiqueiro é autoritário e não respeita os adversários. Ele procura corromper políticos que não comungam com seus ideias. Para isso, oferece bens e benefícios àqueles que trocam de partido. O fisiologismo é uma das características destes políticos, muito comum entre parlamentares.  O viés autoritário é que provoca crimes contra a República como o mensalão.

 

Imorais –    o politiqueiro costuma ser imoral, se envolve em bebedeiras, boatos sobre relacionamentos com mulheres (cantoras, vedetes, atrizes), é constantemente citado em investigações criminais (que não prosseguem, geralmente, por força política) e se satisfazem intimamente com a pecha à brasileira de que “rouba, mas faz”.

 

 

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