Crônica

As músicas que Batista Custódio tocava na redação

Crônica relembra como jornalista Batista Custódio, um dos mais icônicos do país, ouvia música na redação do jornal goiano "Diário da Manhã" e com elas influenciava a dinâmica da produção

Ao adentrar na Redação do “Diário da Manhã”, logo cedo, quem chegava primeiro, ouvia uma sonoridade encorpada, vitoriosa e grandiosa do “Coro dos Escravos Hebreus” ou “Va pensiero, sull’ali dorate’, terceiro ato de “Nabucco”, ópera do italiano Giuseppe Verdi. Uma melodia anunciava o drama sonoro e antecedia uma parede de acordes.
As caixinhas e o pendrive estavam todos orientados, apontados, pelo fundador e editor-geral do “Diário da Manhã”, Batista Custódio, para o corredor. O jornal já estava acordado. Mas a música subia e descia os dois andares, percorrendo os cômodos, deslocando-se quase até a indústria, tremendo as paredes.
Era assim que começava o dia de todos que foram honrados com a presença de Batista, uma das figuras públicas mais interessantes da história de Goiás e da imprensa brasileira.
O tempo passou, o corredor da forma que era se foi, Batista nos deixou em 2023. Ficaram memórias coloridas e sonoras.
A música sempre fez parte da vida de Batista e do DM. Conhecê-lo significava ouvir também as músicas que batiam forte em seu coração.
Batista tinha um gosto eclético, todavia estava concentrado nos clássicos. Jamais deixou de recomendá-los – tanto na literatura quanto na música e artes plásticas.
Desta forma, a música – para ele – adquiria valor maior a partir da sua instrumentalização. A música tinha valor maior – achava – quando falava apenas as diferenças de intervalos e seus respectivos sons. Sem palavras. Ou se com elas, ao menos, que conseguissem, cada uma, ter duas ou mais notas deitadas nelas.
Por isso volta e meia a melodia melancólica do erudito espanhol Joaquim Rodrigo também aplacava nossas almas através do “Concerto de Aranjuez”, cujo adágio ele amava e tocava repetidamente.
Impossível ouvir o melancólico si menor pungente e repetido que abre o movimento e não lembrar das viagens filosóficas de Batista. Apesar da sensação de tristeza, recorrente na música, ela nutria Batista de emoções passadas. E por isso talvez trazia à tona pautas sobre o passado, destravando casos, reabrindo processos históricos e sociabilidades rompidas. A melodia do corne inglês vertia sentimentos de paixão e entrega. De fervor. Batista gostava de lembrar da Goiânia dos anos 1960 e 1970 e dali retirava histórias, narrativas, causos, coisas que poderiam ser objeto jornalístico.

E as ‘melodias que pautam’ se repetiam entre temas de Dvorak, Mozart, Verdi, Bach… Pouco rock e sertanejo se ouvia ali – quase nunca. MPB raras vezes. Jazz tradicional muito pouco – mas não esqueço de vê-lo com um cedezinho de Cole Porter, ouvindo o compositor americano.
Sempre, ao ouvir, era como estar junto dele nesta viagem “vá, pensamento sobre estas asas douradas”, aos modos de Verdi.
O jornal “Diário da Manhã” é, em grande medida, um pensamento do Batista que foi lançado e segue ainda em uma imensidão de ares, navegando, desde ele, entre voos de cruzeiro e tempestades.
Por isso, muitas vezes quando as dificuldades mais o apertavam, era justamente “Va pensiero” que era colocado para tocar muito, mas muito alto, chegando nas ruas próximas da avenida Anhanguera.

Welliton Carlos é jornalista e mestre em Comunicação pela UFG

 

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