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Plantas medicinais resistem no coração de Goiânia

Mesmo diante da urbanização acelerada e crescente industrialização, práticas tradicionais de busca pela cura com plantas se reinventam e sobrevivem na capital goiana, revela pesquisa da UFG

A metrópole é território exclusivo da modernidade? Daqui alguns meses…e teremos carros voadores? Internet nos pontos de ônibus já são realidade?  Adeus a tradição? A cidade é [sim] moderna. Mas não deixa de cultivar o passado. Pesquisa realizada na Universidade Federal de Goiás (UFG) revela como antigos saberes sobre plantas medicinais seguem vivos em Goiânia. A dissertação “Apagamentos, resistências e transformações dos saberes medicinais com plantas em Goiânia” foi defendida no primeiro semestre deste ano por Gabriel Aires Peixoto de Lima, no Programa de Pós-Graduação em Projeto e Cidade da Faculdade de Artes Visuais, sob orientação da professora Adriana Mara Vaz de Oliveira.
O estudo investiga um patrimônio cultural que resiste à invisibilidade no espaço urbano. As lojas de raízes [ e produtos naturais] estão espalhadas nas avenidas e shopping. Mas poucos percebem e questionam como Gabriel Aires.
A investigação buscou entender como práticas de cura com ervas e raízes se mantêm, mesmo diante da pressão de um ambiente marcado pela mercantilização, pela lógica industrial e pelas transformações aceleradas da paisagem urbana. Em sua conclusão, o autor questiona: ” A pesquisa também revelou que essas transformações influenciadas pela indústria, são as que, paradoxalmente, podem possibilitar sua manutenção em novos formatos”. Ou seja, a modernização pode prejudicar e…manter. Daí o paradoxo.
Gabriel utiliza entrevistas, observação de campo e registros visuais, além de valorizar a oralidade como fonte central. O resultado é um retrato que mostra os quintais domésticos, as feiras e os mercados como espaços estratégicos para a transmissão desses saberes. A boa notícia da pesquisa: seu resultado desafia a ideia de que a cidade dissolve tradições.
Embalagem
Como antecipado, o estudo aponta que a mercantilização tem dupla face: por um lado, fragmenta e altera o significado original dos usos medicinais, ao embalar e padronizar o que antes era transmitido de forma comunitária; por outro, garante certa difusão, permitindo que novas gerações tenham contato com esses produtos.
E a modernidade tem sim seu custo quando, por exemplo, órgãos de fiscalização como o Procon chegam nestes estabelecimentos: assim como uma indústria ou comércio, independente do produto, o consumidor tem direitos a procedência, CNPJ, modo de usar, descrição exata das substâncias e data de validade, exigências impensáveis nas ‘roças’ do passado.
A dissertação desperta ações: necessidade de pensar políticas públicas que preservem não apenas as plantas, mas também os contextos culturais em que são utilizadas.
Mais que uma análise etnográfica, a dissertação propõe uma reflexão sobre identidade e memória urbana. Ao mostrar como saberes ancestrais convivem com a lógica contemporânea da cidade, o autor sugere que arquitetos, urbanistas e gestores considerem tais práticas no planejamento urbano. Afinal, cuidar das plantas é também cuidar das pessoas — e manter vivas formas de conhecimento que atravessam séculos, adaptando-se, resistindo e transformando o cotidiano de Goiânia.

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