
M ovimento que impactou a produção cultural brasileira, que teve início em 11 de fevereiro de 1922, o modernismo desmontou séculos de arte barroca tardia e clássica que imperava no Brasil.
Imprensa, arquitetura, design, música…Toda a vida em sociedade mudou. Da estética das ruas aos modelos de formulários da nascente burocracia dos estados. O modernismo mexeu em todas estruturas.
A Semana de Arte Moderna – um dos eventos seminais para a consolidação da arte brasileira e formação de uma influente comunidade cultural do país – também influenciou e mudou Goiás.
O evento que ocorreu entre 11 e 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, rapidamente se espalhou para o restante do país. Em Goiás demorou mais de uma década para impactar nossa produção.
Começamos a devolver a produção na mesma linguagem por volta das décadas de 1940 e 1950.
A revolução de 1930 trouxe com mais rapidez os novos ares para Goiás. O arquiteto Attilio Corrêa Lima, formado na Paris dos vários ‘modernismos’, fez do plano urbanístico de Goiânia ( 1933) nossa primeira grande imagem moderna.
Nacionalmente o movimento começou desde já experimentalista e polêmico. Escritores como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Plínio Salgado e Menotti Del Picchia marcaram grandes debates que trataram sobretudo da necessidade de se tematizar o Brasil de uma forma mais urbana, industrial, jovial e livre.
Em outras artes, como a música e artes plásticas, Anita Malfatti, Heitor Villa-Lobos, Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral polemizaram em suas medidas: na forma, na função e na disposição da arte dentre as demais modalidades de conhecimento. Monteiro Lobato, por exemplo, jornalista opinativo que era, resolveu contrapor ao pacote de polêmicas advindo do modernismo. Anos antes da semana, em 1917, Anita Malfatti já apresentava sua arte moderna e despertava a ira dos conservadores.
Lobato foi um dos pensadores da época que questionaram principalmente a “forma” do modernismo, que surgiu exatamente para rejeitar práticas antigas da arte que potencialmente não representavam mais a vida mental das cidades. Hoje, claro, voto vencido, Lobato ficou só como personagem curioso dessa época.
Mas como Goiás surgiu moderno? A primeira obra modernista do Estado – de fato – foi a construção de Goiânia, como antecipado. Com seu traço fundado na art deco, o município rapidamente atraiu novidades e arte contemporânea ao seu tempo.
Os artistas modernos de Goiás, todavia, eram crianças ou sequer tinham nascido quando o movimento propriamente eclodiu no Brasil – a pianista Belkiss Spenciere nascerá apenas em 1928.
“Ermos e Gerais”, de 1944, obra de Bernardo Élis, pode ser considerado o marco inicial da produção literária modernista goiana. A linguagem e temática atualizaram o regionalismo, que era uma vertente que começou antes do modernismo. Mas os contos são modernos, repletos de angústias existenciais da era do tempo e da moeda, do relógio e da exatidão, do abstrato e do expressionista.

Na música, a principal “modernista” é Belkiss Spenciere Carneiro Mendonça, que foi em busca de Villa Lobos para obter orientações de como criar uma escola de música em Goiás.
Rapidamente, Belkiss tornou-se exemplo do modernismo goiano, já que passou a interpretar a primeira escola de piano brasileira, com a leitura em primeira mão de autores como Lorenzo Fernandez e Francisco Mignone.
Belkiss foi intérprete, diga-se. Mas uma das mais importantes desta nova era do piano erudito brasileiro, a ponto de ser uma das prediletas do compositor Camargo Guarnieri.
Com ele, inclusive, Belkiss trabalhou na educação musical, trazendo-o para Goiás.
Graças a Belkiss, Goiás saltou do melodismo romântico do passado – tão ideal aos apaixonados em Frederico Chopin – e pulou no burro bravo do estranhamento das dissonância e síncope desvairadas.

Nas artes plásticas, o italiano Frei Confaloni renovou os contornos de nossa pintura: começou pintando 15 afrescos na Igreja do Rosário, na Vila Boa (Cidade de Goiás). Depois, a partir de 1952, Confaloni ajudou a disseminar uma pintura mais colorida, rápida e que foge da tentativa de representar o realismo. Graças à sua linguagem, pintores goianos dessa época tornaram-se anacrônicos a ponto de serem completamente esquecidos na história da arte goiana.