
P aulo Leminski foi um artista que atravessou gerações e fincou bandeiras até mesmo no planeta música. A versatilidade e produtividade marcaram sua obra de maneira única.
Poeta, escritor, compositor (sim!), judoca (ipon!) nascido em Curitiba (PR), Leminski desafiava a noção de que a multiplicidade de interesses poderia prejudicar a qualidade de suas criações.
O artista morreu em 1989 por conta de cirrose hepática. Tinha 44 anos. E costumava dizer que tinha uma “litroteca” – os livros ficavam escondidos atrás das bebidas e vice versa.
Ao contrário do poeta clássico, ele explorava diversas formas de expressão artística, sem jamais comprometer a profundidade de suas produções. Por isso o judô – esporte olímpico – virou arte em sua vida.
Essa habilidade de transitar entre diferentes áreas e linguagens revela um espírito criativo capaz de dialogar com múltiplas referências culturais.
Literatura e música, artes marciais e publicidade, crítica e beleza. Assim foi sua obra poética associada ao minimalismo e à síntese – por isso ele tornou-se nosso maior autor de haicais.
Sua estética mergulha na contemporaneidade pela forma da essência. E suas experiências são de precisão cirúrgica no uso da palavra-melodia.
Paulo Leminski é o poeta marginal mais refinado do Brasil que transborda senso de humor e visão crítica da realidade brasileira.
A grande questão tratada como menor é sua música. Menos reconhecido por esse talento, ele colaborou com grandes nomes da música popular brasileira.
Caetano Veloso e Itamar Assumpção são alguns destes vetores de sua poesia melódica. É preciso redescobrir suas composições, muitas vezes impedidas de circular por conta da ditadura militar.
O portal politikos.com.br selecionou três canções dele para entender seu legado musical.
Leminski é uma obra nacional. Reflete o rock e a música popular dos anos 70 e 80 e se contemporaniza com os novos que o descobrem nos anos 90 e 2000.
Preservar sua arte é algo difícil. Uma militância da família. O Festival Paulo Leminski celebra e divulga seu legado. Artista de grande impacto, não custa lembrar o músico Téo Ruiz, que diz ser ele “um mundo inteiro”.
Mas eis as músicas. Em 1981, Caetano gravou “Verdura”, com a lavra do poeta judoca. A letra:
De repente me lembro do verde
A cor verde, a mais verde que existe
A cor mais alegre, a cor mais triste
O verde que vestes, o verde que vestiste
No dia em que te vi
No dia em que
Me viste
De repente vendi meus filhos pra uma família americana
Eles têm carro
Eles têm grana
Eles têm casa e a grama é bacana
Só assim eles podem voltar
E pegar um sol em Copacabana (Copacabana)
(E pegar um sol em Copacabana)
(E pegar um sol em Copacabana)
(E pegar um sol em Copacabana)
E pegar um sol (em Copacabana)
No ano seguinte, Ney Matogrosso gravou “Promessas demais”, uma letra de Paulo, Moraes Moreira e Zeca Barreto com fina ironia.
Em 2001, Arnaldo Antunes regravou “Luzes”, numa luminar brincadeira com as iluminações rurais e urbanas. Eis a letra:
Acenda a lâmpada às seis horas da tarde
Acenda a luz dos lampiões
Inflame a chama dos salões
Fogos de línguas de dragões
Vagalumes
Numa nuvem de poeira de neon
Tudo claro
Tudo claro à noite, assim que é bom
A luz
Acesa na janela lá de casa
O fogo
O foco lá no beco e um farol
Essa noite
Essa noite vai ter sol
Essa noite
Essa noite vai ter sol
Acenda a lâmpada às seis horas da tarde
Acenda a luz dos lampiões
Inflame a chama dos salões
Fogos de línguas de dragões
Vagalumes
Numa nuvem de poeira de neon
Tudo claro
Tudo claro à noite, assim que é bom
A luz
Acesa na janela lá de casa
O fogo
O foco lá no beco e um farol
Essa noite
Essa noite vai ter sol
Essa noite
Essa noite vai ter sol
Essa noite
Essa noite vai ter sol
O que dizer do poeta marginal que singrou mares tão distantes quanto o judô e tão próximos como a canção?
“tudo dito,
nada feito,
fito e deito”
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