Dos cartuchos ao realismo cinematográfico: os games que marcaram uma vida de jogador
De uma coisa não posso reclamar: joguei muito e muitos clássicos. Outros nem foram tão importantes. Mas marcaram o olhar maravilhado diante dos vídeos que interagiam com os humanos. Eis a lista com os jogos da minha vida

Welliton Carlos
De clássicos do Enduro e River Raid no Atari aos universos narrativos de The Last of Us e Shadow of the Colossus, a trajetória de um jogador revela também a evolução tecnológica, criativa e cultural da indústria dos videogames ao longo de mais de quatro décadas.

Os videogames sempre foram mais do que entretenimento para muitos jogadores, incluindo este que escreve a presente análise. Aqueles que cresceram nas décadas de 1970, 1980 e 1990 viveram a era de ouro dos games. Eles funcionaram como porta de entrada para a tecnologia, a lógica e até para o interesse em programação. Ao revisitar alguns títulos marcantes da minha vida, é possível perceber como cada geração de consoles ajudou a construir uma relação pessoal com os jogos — uma lista que não pretende ser definitiva, mas representativa de uma vida inteira que tive diante da tela.
A jornada começa no início dos anos 1980 com clássicos do Atari. Lançado em 1983, o Enduro, o jogo de corrida criado por Larry Miller para a Activision, colocava o jogador em corridas intermináveis com mudanças de clima e iluminação. Para muitos jogadores da época, era fascinante perceber como um cartucho de poucos kilobytes conseguia simular ciclos de dia e noite.
Outro marco foi River Raid, desenvolvido por Carol Shaw, também para a Activision. O jogo de ação aérea era impressionante pela sensação de velocidade e pelo cenário que se expandia verticalmente, algo tecnicamente inovador para o Atari 2600. Lembro de jogá-lo em um ‘taito’ que surgiu na avenida B (Senador Jaime), em Goiânia. Ficava horas torrando as moedas do meu pai, comprando fichas nos anos 1982, 1983, 1984. Depois, comprei o cartucho e revivi tudo na tevê de casa.
Ainda no Atari, outro título que marcou gerações foi Pitfall!. Criado por David Crane, o jogo apresentou uma das primeiras experiências de aventura em mundo interligado dos videogames. Para quem jogava na época, explorar cavernas, cipós e tesouros parecia uma jornada gigantesca dentro de um cartucho simples. Trata-se de dos primeiros games de plataforma.
16-bits
Com a chegada da geração 16-bits, a experiência mudou radicalmente. Lançado em 1990 para o Super Nintendo Entertainment System, Super Mario World se tornou um símbolo da criatividade da Nintendo e da equipe liderada por Shigeru Miyamoto. O mapa interconectado e os segredos espalhados pelas fases ampliaram a sensação de descoberta. Lembro que estava prestes a entrar na faculdade. E simplesmente só podia jogar nos finais de semana. Alugava de um amigo do Colégio Professor Pardal, o ‘donzinho’ Almir, que tinha uma locadora de games no setor Coimbra, a quem ainda hoje procuro para rememorar aqueles anos.

Nos anos seguintes, os jogos de futebol passaram a ocupar espaço central na minha vida – era aficionado em jogo de botão. A série Pro Evolution Soccer, da Konami, conquistou fãs pelo realismo na jogabilidade e pela estratégia em campo, especialmente nas versões dos anos 2000 para PlayStation 2. Lembro que comprei jogos para consoles e computador.

Ao mesmo tempo, a franquia FIFA, da Electronic Arts, evoluía ano a ano com licenças oficiais de clubes e campeonatos. A rivalidade entre as duas séries marcou gerações de jogadores e se tornou um ritual entre amigos. De dia, eu jogava Fifa…de noite, PES.
Na era tridimensional, outro marco foi Super Mario Galaxy, lançado para o Nintendo Wii. O jogo revolucionou a forma de explorar cenários ao permitir gravidade variável em pequenos planetas, expandindo as possibilidades do design de fases. É outro clássico da minha vida.
Também nessa época ganhou destaque Sonic Adventure 2, desenvolvido pela Sega para o Dreamcast. O título combinava ação veloz, narrativa cinematográfica e trilha sonora marcante ( rockão), representando a transição da franquia Sonic para o universo 3D. Aquela descida de skate em uma cidade tipo San Francisco ainda hoje me faz sonhar.
Música
Os jogos musicais abriram outro capítulo na relação com os videogames. Guitar Hero, desenvolvido pela Harmonix, permitia que os jogadores simulassem tocar guitarra em músicas famosas usando um controle especial. Como um inveterado guitarrista, não raro, atacava a franquia. Mas o mojo do game era a vibração e ritmo. E aquilo mexia comigo.
A mesma desenvolvedora criou Rock Band, que expandiu o conceito ao incluir bateria, microfone e guitarra, transformando o videogame em uma experiência musical coletiva. O game dos Beatles me fez virar muitas noites! Pura lisergia digital…
Já Rocksmith levou a proposta ainda mais longe. Desenvolvido pela Ubisoft, o jogo permitia conectar uma guitarra real ao console e aprender música enquanto se jogava. Esse eu fui ter bem mais velho, nos anos 2010, quando encontrei o raríssimo cabo para comprar. Toquei bastante. Até no PS4.
Na geração seguinte, os jogos passaram a apostar fortemente na narrativa. Uncharted, criado pela Naughty Dog para o PlayStation 3, trouxe aventura cinematográfica inspirada em filmes de ação. Lembro de jogar junto com minha filha mais velha, que embarcava na aventura.
Essa evolução narrativa alcançou um novo patamar com The Last of Us, também da Naughty Dog. O jogo se destacou pela profundidade emocional da história e pela construção de personagens complexos. Sou fã da franquia. Mas ainda não tive tempo de jogar o 2. Mas está na lista de atividades para o futuro próximo.

Outro título frequentemente lembrado como obra de arte é Shadow of the Colossus, criado pelo diretor Fumito Ueda para o PlayStation 2. O jogo apostou em um mundo minimalista e batalhas épicas contra gigantes, mostrando como videogames também podem ser experiências contemplativas. Obra de arte.
Essa lista de jogos é, acima de tudo, pessoal e mutável. Ela representa momentos diferentes da vida de um jogador — da infância diante do Atari até a maturidade acompanhando narrativas complexas. Mais do que nostalgia, cada título revela um capítulo da evolução tecnológica e criativa dos videogames, e também o olhar curioso de quem sempre enxergou nos jogos não apenas diversão, mas uma fascinante combinação de arte, programação e imaginação.
Welliton Carlos é jornalista, advogado, mestre em Direito, doutor em Sociologia e colecionador de games



