Como a república chegou em Goyaz


Welliton Carlos | Politikos

Goiás viveu momentos de profunda euforia durante o 15 de novembro de 1889. Naquele dia, uma informação começaria a se espalhar somente à noite nos campos ermos da província.

Não existia praticamente nada em Goiás: estradas eram precárias e o sistema de comunicação, inexistente. Não existia também iluminação.

Apenas na cidade de Goiás ou em outras localidades mais consolidadas, como Morrinhos ou ‘Jatahy’, existia alguma espécie de desenvolvimento importado por meio de produtos, roupas, livros que chegavam da Capital Federal ou de São Paulo.

Documentos consultados na cidade de Goiás mostram que a proclamação celebrada naquele ano traria um movimento político importantíssimo para o desenvolvimento dos goianos: a federalização. E com ela a modernidade negada pelo império.

Sonho da era republicana: na década de 1940, trem transpõe a ponte sobre o rio Paranaíba, na divisa de Minas com o Estado de Goiás (Foto: Reprodução)

O Estado passaria a contar com a maior parte de sua arrecadação e os modelos de organização se afastaram gradualmente de Portugal.  E assim surgiria efetivamente na esfera pública as famílias que dominariam a política goiana até a década de 1930 – e que ainda hoje se fazem presentes na política de Goiás.

Foi a república que institucionalizou o coronelismo, fortaleceu os grupos e despertou o desejo pelo poder. A partir dessa época ocorre o revezamento das famílias dos Bulhões, Jardins, Caiados e de Xavier Almeida no poder. Antes, eles já se revezavam, mas sem a proeminência dos anos que viriam. O cenário republicano tornou mais clara a disputa e diferenças.

 

Governador Rodolfo da Paixão: transição para a República (Imagem: Reprodução)

A primeira mudança política significativa: com a República que se instalava ocorreu o fortalecimento dos partidos republicanos e o fim da antiga dicotomia dos integrantes dos Partidos Liberal e Conservador – primeira grande divergência política nacional.

O grupo conservador defendia o centralismo das decisões na capital federal. Fundado em Goiás pelos Bulhões, o Partido Liberal queria a liberdade de ação para as províncias.

Uma das palavras da moda era ser democrata, mesmo que para isso – para a conquista do voto ‘democrático’ – fosse necessária a imposição do voto de cabresto.

É dessa época o marco zero do aparelhamento público goiano, com os primeiros investimentos em vias de acesso e obras. É desse período também a venda de sonhos por conta dos políticos.  O homem público da República não prometia metrô, mas uma moderna estrada de ferro que pudesse tirar o homem do sertão e o levasse para a metropolitana São Paulo, por exemplo.

 

Cidade de Goiás registrou as mudanças para a República em sua própria política regional (Foto: Reprodução)

A modernidade de 1889 também incomodava os goianos mais letrados, que avançaram pouco nas duas décadas anteriores. Para se ter ideia, o mundo  respirava a psicanálise, as histórias sobre uma torre de ferro enorme que despertava Paris. No Japão surgia a Nintendo – a mesma empresa que hoje lidera o mercado de videogames de 3D. E em Goiás, um precário sistema educacional sobrevivia às duras críticas dos gestores que entendiam ser dinheiro jogado fora educar crianças.

Tínhamos apenas um chafariz e algumas empresas que tentavam vender tecidos, farmácias com medicamentos vencidos e armazéns que comercializavam arroz e feijão.

Famoso Rodolfo da Paixão, no “Jornal do Brasil” de 1934

O presidente da província, Eduardo Augusto Montadon, foi quem atravessou os tempos de império para província. Governou até 6 de dezembro, quando, por fim, sob fogo cerrado, entregou o comando para a junta governativa que tomou posse para fazer a transição.

O triunvirato que assumiu o poder era composto por Joaquim Xavier Guimarães Natal, José Joaquim de Sousa e Eugênio Augusto de Melo. No grupo, o brilhante Guimarães Natal – jurista goiano que no futuro integraria o Supremo Tribunal Federal (STF) – emprestava serenidade e boa educação.

 

Jornais da época sugerem que as grandes questões de Goiás residiam na suposta exploração do Rio das Mortes através da navegação (um sonho desenvolvimentista) e na vinda da Companhia Mogyana, que ligaria Goiás ao oeste de Minas, por meio de um contrato de 70 anos para explorar o trem de ferro que seria construído.

 

Na Corte Suprema, Guimarães Natal tomaria posse em 1905 e só deixaria o STF em 1927.  Mas na fase que antecedeu a República, exerceu a promotoria de ‘Goiás Velho’, onde cuidava da atenção dos órfãos – uma preocupação crescente da Goiás daquela época. Jornais de 1880 mostram que Guimarães Natal era atuante na capital, realizando eventos paroquiais para angariar recursos e assim tratar dos menores.

Novo governo

Ao fim da junta, assumiu Rodolfo Gustavo da Paixão – cujo governo durou de fevereiro de 1890 até 1891. Ao Congresso Constituinte, dois anos depois da instalação da República, ele enviava um comunicado para lá de abusado: atacava aqueles que aderiram à República e que jamais fizeram pela liberdade de culto, fim da escravidão e federalismo. Para descrever o momento, usava a palavra da moda: eletrizar. “A noticia da proclamação da republica electrisou Goyaz, como todo o Brazil, anullando, desde logo, quaesquer velleidades de restauração”, dizia o governador na linguagem da época.

Rodolfo inclusive alerta que jamais teve espírito de vingança e sempre que possível procurou pelo auxílio de “bons elementos” dos partidos monarquistas.   Para o grupo de parlamentares, destacava que telegramas maldosos (‘telegramas de effeito’) eram enviados para a imprensa carioca, que interpretava equivocadamente o que acontecia em Goiás.

Goiás tinha 13.937 eleitores qualificados para “votar” (Foto: Reprodução)

Em torno do debate de Rodolfo, claro, estavam as disputas regionais com os grupos políticos – principalmente dos apoiados pelos Caiados.  Mas no centro das discussões estava algo ainda hoje debatido no Brasil: a real descentralização política.

Hoje, o Brasil reproduz um sistema federado que atende à União. Na época, existia o receio de que a descentralização deixaria os novos entes federados, como os municípios, desprotegidos. “Não vos arreceeis de que a autonomia do municipio lhe acarrete ruína, por falta de receita sufficiente aos seus encargos, e afrouxe ou annulle os poderes estadoaes: “Descentralização- União”, eis o lemma dos republicanos históricos. Quanto mais independente elle for, mais se fortalecerá o laço que o vincúla ao centro ”,  disse o governador, em carta pública, que encaminhou aos congressistas.

Uma das preocupações da época dizia respeito a definir o que seria Goiás a partir daquele momento. E tudo deveria constar na Constituição. O governador, por exemplo, sugeria que o ensino fundamental deveria ser público e gratuito, mas o secundário e  universitário, quando existisse,  caberia às associações, como “preceitua, sabiamente, a constituição paulista”.

 

 

Goiás tinha 13 mil eleitores

Nos tempos da República, a dívida pública dos goianos se resumia a 2:148$000 rs – pouco mais de R$ 600 mil. O governador dizia que o encargo era nulo.  Daí poder gastar muito com o modismo do ‘empréstimo’.

O governador inclusive avisa que pretende contrair empréstimos para fazer Goiás avançar. Assim ele se comunicava com os parlamentares: “Não tenhaes horror a empréstimo, desde que se possa amortiza-lo e pagar juros respectivos, dentro de cada exercício”.

Os órgãos centrais do governo eram a Secretaria de Estado e Secretaria do ‘Thezouro Publico’  e da Ordem Pública – que comandava o temido Batalhão de Infantaria n. 20.

O militar Honório Horácio de Almeida tomava conta do agrupamento que fez esforçou para reprimir qualquer restaurador que desejasse dar fim aos ideais republicanos. Conforme Rodolfo da Paixão, “a receita de Goyaz apresentava significativo aumento”.

Mas a conversão do Brasil em República exigia cortes, apesar das contas azeitadas – pelo menos no palavratório do governador. A começar dos órgãos sem utilidade. Um deles dizia respeito à imprensa oficial: a Typographia estadoal, que já era usada para fazer corrupção, estava na lista das desestatizações. “Existem empresas privadas que podem fazer o mesmo e sem perigo de novas aposentadorias”, dizia o governador.

Outro serviço que o governo desejava deixar de prestar: ‘a catechese’. Para Rodolfo, não caberia mais ao estado gastar seus recursos com a doutrinação religiosa.

Desde aquela época, o temor central dos moradores de Goiás era a segurança pública.  E o governador reconhecia que faltava muito para garantir a ‘segurança individual e propriedade’: “A situação é crítica”.

Sem recursos, a secretaria de Obras Públicas se resumia a fazer pequenos reparos, como o recente  conserto da estrada do sul, a Ponte do Carmo e os reparos no Chafariz, Palácio, na cadeia pública, no Lyceu, no matadouro e no mercado da capital.

Jornais da época sugerem que as grandes questões de Goiás residiam na suposta exploração do Rio das Mortes através da navegação (um sonho desenvolvimentista) e na vinda da Companhia Mogyana, que ligaria Goiás ao oeste de Minas, por meio de um contrato de 70 anos para explorar o trem de ferro que seria construído.

Naqueles anos de república, existiam 13.937 eleitores qualificados para participarem das eleições – mulheres nem jovens votavam. O voto de cabresto era a regra e cada fazendeiro tinha seu grupo de eleitores.  Ganhava quem reunia mais gente em torno das fazendas.

 

Instituto guarda poucos documentos

O Instituto Histórico Geográfico de Goiás tem poucos registros do nascimento da República. Todavia, as memórias estão em maior quantidade na antiga capital – além de documentos levados para museus do Rio de Janeiro e Distrito Federal.

Em Goiânia, entretanto,  existe uma relativa quantidade de jornais que registram aquele momento histórico, além de uma quantidade razoável de livros e pesquisas.

Eles testemunham a participação de José Leopoldo de Bulhões Jardim, que se formou em direito em 1880, em São Paulo, além de atuar como ministro das finanças nas futuras gestões da política Café com Leite. Ele teve o ideal de combater a escravidão. E ao lado do irmão, juiz de direito e um dos grandes poetas de Goiás, Félix de Bulhões, voltaram para Goiás e começaram essa luta.

Apesar deles assumirem o poder com novos ideais, perdurou o “coronelismo” e uma espécie de política que impedia a prática dos princípios da ‘res’ pública (coisa pública, coisa de todos).

Quando começa a República, Leopoldo estava seguindo para o Rio de Janeiro. Leopoldo de Bulhões foi eleito deputado geral, que seria o deputado federal. E a caminho da corte, no Rio de Janeiro, ele recebe a notícia da proclamação da República. Então, ele se comunica e dá a notícia para os membros do Partido Liberal, de que o partido apoiaria o movimento.

Anterior Inspirada em Platão, PF apura desvios de R$ 32 milhões no "Minha Casa, Minha Vida"
Próxima Projeto de Rubens Otoni garante dia de prova para religiosos