SÃO PAULO: Especialistas debatem representatividade feminina no País


Douglas Matos | REDAÇÃO

No México as mulheres representam 42% do Parlamento. No Brasil elas mal chegam a 10%. Mas qual a relevância desse comparativo?  Para a cientista política Tatiana Ribeiral, o paralelo com o país norte-americano pode dizer muito mais do que parece.

Na verdade, a pesquisadora de Direitos Políticos e Cidadania acredita que a análise ajuda não só a explicar o fracasso brasileiro na busca pela igualdade de gênero no sistema eleitoral como também pode indicar soluções efetivas para o problema.

Autora de uma tese de doutorado sobre o tema na área de Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (UnB), Tatiana acredita que o caminho escolhido pelos mexicanos nos últimos dez anos poderia ser viável também por aqui.

“No México as cotas foram ampliadas de 30% para 50%. Lá, o ativismo dos tribunais eleitorais também é exemplar. Eles chegam nos partidos e exigem que essas regras sejam de fato cumpridas. Além disso, nas eleições, eles alternam homens e mulheres em lista fechada. E vale lembrar que isso fez uma diferença enorme em outros países, como Argentina e Bolívia”, avaliou.

Tatiana Ribeiral explicou que o Brasil sequer preenche as cotas de 30% previstas por Lei. Segundo ela, muitos partidos burlam a Lei ou criam a chamada ‘candidatura fantasma’, em que a mulher entra na disputa de forma figurativa, mas sem chances reais.

A discussão proposta pela cientista política foi um dos assuntos discutidos na segunda aula do curso “Mulheres na Política – Entre os Estudos e a Prática”, promovido pela Escola do Parlamento da Câmara.

“No primeiro dia recebemos aqui as vereadoras Sâmia Bonfim (PSOL) e Patrícia Bezerra (PSDB). Elas relataram suas dificuldades e tivemos um debate muito interessante. E hoje não foi diferente com as análises das especialistas”, destacou Ilza Jorge, diretora da entidade.

A convidada Marina Merlo, do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadora do NIPE/CEBRAP (Núcleo de Instituições Políticas e Eleições do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), abordou justamente o caso das vereadoras que conseguiram se eleger no Legislativo Paulistano.

Uma das principais reflexões de Marina é: quais são exatamente os fatores que permitem que algumas mulheres consigam vencer o pleito enquanto outras sequer chegam perto de uma votação expressiva? Para ela, não existe uma resposta simples, mas uma série de fatores que ajudam a explicar o sucesso quase darwiniano de tão poucas candidatas em detrimento de muitas.

“Apesar das cotas, a maioria delas não tem apoio dos partidos e das lideranças. E quando o candidato vai fazer um sucessor ou dar apoio político, ele prefere escolher um homem. Ou seja, quando as candidaturas femininas são lançadas, elas geralmente não têm apoio e acabam abandonadas. É esse apoio que define quem vence ou não um pleito no Brasil”, concluiu a pesquisadora.

A mestranda em Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do GEPÔ (Grupo de Estudos de Gênero e Política), Hannah Maruci Aflalo, lembrou que, infelizmente, boa parte das dificuldades enfrentadas pelas mulheres hoje é resquício do processo que inaugurou a participação feminina no País.

“Esse movimento de reivindicação pelo voto feminino se deu após a Revolução de 1930, quando houve uma lacuna na representação. E as mulheres viram aí uma oportunidade. Por outro lado, algumas restrições nasceram nesse contexto e ainda repercutem na vida dessas mulheres. É preciso pensar o começo disso, para entendermos o presente e projetarmos o futuro na direção certa”, disse.

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